A FERIDA DO PAI

Artigo 1

Como a relação com a figura paterna pode continuar influenciando sua autoestima, seus relacionamentos e a forma como você ocupa o seu lugar no mundo

Por Patrícia Naves Garcia

“A forma como nos relacionamos com nossa história não muda o passado. Mas pode mudar completamente a maneira como o passado continua vivendo dentro de nós.” Patrícia Naves Garcia

Algumas feridas não deixam marcas na pele. Existem feridas que todos conseguem enxergar. Uma cicatriz no braço, um corte no rosto, uma perna engessada.

Quando olhamos para alguém assim, entendemos imediatamente que aquela pessoa está vivendo um processo de recuperação.

Mas, existem outras feridas que passam completamente despercebidas. Elas não aparecem no corpo, aparecem na dificuldade de confiar, na culpa por prosperar, no medo de decepcionar, na necessidade de provar o próprio valor o tempo todo. Naquela sensação de que, por mais que a vida avance, alguma coisa continua impedindo você de caminhar com tranquilidade.

Essas feridas não costumam ser identificadas em exames de sangue, não aparecem em uma radiografia e muitas vezes, nem a própria pessoa consegue nomeá-las. Ela apenas sente que existe algo fora do lugar.

Ao longo de muitos anos atendendo pessoas e formando terapeutas, percebi que uma pergunta aparecia repetidamente no consultório. Nunca era feita exatamente com estas palavras, mas estava presente em diferentes histórias.

“Por que parece que eu sempre volto para o mesmo lugar?”

A pessoa mudava de emprego. Mudava de cidade. Mudava de relacionamento. Mudava de profissão. Mudava até a forma de pensar, mas, algum tempo depois, encontrava novamente a mesma sensação de insuficiência.

Como se a paisagem tivesse mudado, mas o caminho permanecesse exatamente igual. Foi então que compreendi algo que transformou profundamente a minha forma de olhar para o comportamento humano.

Grande parte das nossas dificuldades não nasce quando elas aparecem. Do mesmo jeitinho de uma árvore que não começa no galho, nossa história emocional também não nasce no que está visível, aparente. Nossa história e a dor que é sua consequência, está nas raízes. E essas raízes permanecem invisíveis durante anos.

A Terapia Sistêmica nos convida exatamente a fazer esse movimento. Em vez de perguntar apenas “o que está acontecendo?”, ela nos convida a perguntar:

“Como essa história começou a ser construída?” ou “Qual a raiz disso?”.

Uma pergunta que muda tudo. Porque ela nos afasta da culpa e nos aproxima da compreensão. Esse, aliás, é o primeiro passo: não buscamos culpados, buscamos contexto. Não procuramos um responsável pelo sofrimento, procuramos compreender como determinados padrões foram aprendidos, fortalecidos e, muitas vezes, repetidos ao longo da vida.

É por isso que este artigo não pretende dizer que todos os problemas da vida adulta surgem da relação com o pai. Jamais caberia aqui uma afirmação tão simplista.

O comportamento humano é resultado de uma combinação complexa entre fatores biológicos, psicológicos, relacionais, sociais e culturais. Mas, também seria um equívoco ignorar aquilo que décadas de pesquisa e empirismo vêm demonstrando. As primeiras relações da vida participam da construção da forma como percebemos a nós mesmos, os outros e o mundo.

Autores como John Bowlby, ao desenvolver a Teoria do Apego, mostraram que as experiências vividas com as figuras de cuidado influenciam a maneira como construímos segurança emocional ao longo da vida.

Murray Bowen, um dos principais nomes da Terapia Sistêmica, demonstrou que nossa capacidade de agir com autonomia está profundamente relacionada à forma como nos diferenciamos emocionalmente da família de origem.

Carl Gustav Jung ampliou essa compreensão ao descrever a figura paterna como um arquétipo associado à direção, à estrutura e à capacidade de avançar na vida.

Cada um utilizou uma linguagem diferente, mas todos apontaram para uma mesma direção: As primeiras relações importam.

Elas não determinam completamente quem nos tornaremos, porém ajudam a construir o modo como caminhamos pela vida. E talvez seja justamente aqui que comece uma das maiores confusões quando falamos sobre a figura paterna.

Pode parecer que este será um texto sobre pais, mas na verdade, este é um texto sobre filhos. Sobre homens e mulheres adultos que, sem perceber, ainda carregam dentro de si formas muito antigas de interpretar o mundo.

Porque a infância termina, mas nem sempre as aprendizagens da infância terminam com ela. Algumas continuam dirigindo nossas escolhas por muitos anos. E é justamente por isso que gosto tanto de uma metáfora muito simples.

 Ela não explica toda a complexidade da relação entre pais e filhos. Mas ajuda a compreender uma parte importante dessa história.

Ela começa com uma bicicleta.

O dia em que o pai solta a bicicleta

Quero convidar você a imaginar uma cena. Talvez ela tenha acontecido com você. Talvez tenha acontecido com um irmão, um filho, um sobrinho ou alguém de quem você gosta.

Uma criança está aprendendo a andar de bicicleta. No início, tudo parece instável, as pernas ainda não encontraram o ritmo, o guidão balança. O medo de cair é maior do que a vontade de seguir. E, por isso, a criança faz uma coisa muito curiosa. Ela olha para trás o tempo inteiro.

Não porque queira voltar. Mas porque precisa ter certeza de que alguém continua segurando o banco. Ela acredita que consegue pedalar porque existe uma mão sustentando seus primeiros movimentos.

Até que chega um momento que costuma passar despercebido.

O pai solta.

E, na maioria das vezes, a criança não percebe exatamente quando isso aconteceu. Ela continua pedalando. Mais alguns metros. Depois mais alguns.

Até olhar para trás e descobrir que já estava andando sozinha. Naquele instante acontece algo extraordinário.

Ela não aprende apenas a andar de bicicleta, ela aprende algo sobre si mesma: ela descobre que é capaz.

E essa talvez seja uma das tarefas mais bonitas da função paterna: não fazer o caminho pelo filho. Nem permanecer segurando a bicicleta para sempre. Mas,  ajudá-lo a construir, dentro de si, confiança suficiente para seguir adiante mesmo quando já não houver ninguém segurando o banco.

É justamente aqui que a Psicologia faz uma distinção muito importante. Porque uma coisa é o pai. Outra, muito diferente, é a função paterna. E compreender essa diferença pode mudar completamente a maneira como olhamos para a nossa própria história.

O pai é uma pessoa. A função paterna é outra.

Se eu perguntasse agora: “Como foi o seu pai?”, provavelmente muitas lembranças viriam à sua mente. Talvez você pensasse em um homem trabalhador. Ou em alguém muito rígido. Talvez lembrasse de um pai brincalhão. Ausente. Silencioso. Afetuoso. Violento. Ou, quem sabe, você nunca chegou a conhecê-lo.

Cada história é única.

É justamente por isso que precisamos fazer uma distinção importante. Quando falo sobre a figura paterna, não estou falando apenas do homem que participou da nossa história. Estou falando daquilo que a Psicologia chama de função paterna.

Pode parecer apenas uma mudança de palavras. Mas não é. Ela muda completamente a forma como compreendemos o desenvolvimento humano.

A função paterna representa, simbolicamente, a passagem entre dois mundos.

O mundo da proteção…

…e o mundo da autonomia.

É ela que ajuda a criança a compreender, aos poucos, que existe um mundo além dos braços da mãe. Um mundo que pode ser explorado. Descoberto. Conquistado. Sem que ela deixe de pertencer à sua família.

Essa ideia aparece em diferentes abordagens da Psicologia. Embora utilizem conceitos diferentes, autores como Carl Gustav Jung, Murray Bowen, John Bowlby, Salvador Minuchin e Virginia Satir convergem em um ponto importante: as primeiras relações participam profundamente da construção da identidade.

Jung descreveu a figura paterna como um arquétipo relacionado à direção, à estrutura e ao encontro com o mundo. Bowen mostrou que a qualidade dos vínculos familiares influencia nossa capacidade de diferenciação — ou seja, de sermos nós mesmos sem romper nossos laços de pertencimento. Bowlby demonstrou que as primeiras experiências de apego moldam a maneira como percebemos segurança, proteção e disponibilidade emocional ao longo da vida. Minuchin observou como a organização da família influencia o desenvolvimento saudável de seus membros.

E Virginia Satir lembrava algo muito bonito. Ela dizia que toda criança precisa crescer sentindo que possui valor. Não porque é perfeita, mas simplesmente porque existe.

Percebe como esses autores estão falando da mesma direção? Igual, só que diferente.

Cada um utiliza uma linguagem. Cada um observa um aspecto diferente. Mas, todos nos ajudam a compreender que a infância não termina quando deixamos de ser crianças.

Ela continua vivendo na forma como interpretamos o mundo.

Quando a bicicleta segue segurada

Quero voltar à nossa metáfora.

Imagine aquela mesma criança. Ela continua pedalando, mas, desta vez, acontece algo diferente. O pai nunca solta o banco. Ele continua segurando. Corrigindo. Decidindo. Avisando. Controlando.

À primeira vista, isso pode parecer cuidado, entretanto, existe um risco silencioso.

Como aquela criança descobrirá que consegue andar sozinha se nunca teve a oportunidade de experimentar isso?

Nos atendimentos, encontro muitas pessoas que cresceram em famílias extremamente amorosas. Pais presentes. Pais dedicados, que fizeram tudo pelos filhos.

E, ainda assim, esses adultos carregam enorme dificuldade para tomar decisões. Precisam perguntar a opinião de todo mundo. Sentem culpa quando escolhem um caminho diferente do esperado. Têm medo de errar. Procrastinam. Adiam projetos importantes.

Não porque lhes falte inteligência. Mas porque lhes falta confiança.

É como se alguém continuasse segurando a bicicleta. Agora, porém, essa mão não está do lado de fora. Ela foi internalizada. Transformou-se em uma voz.

“Será que dou conta?”

“Será que estou preparado?”

“E se eu decepcionar alguém?”

Chamamos isso de insegurança, mas,  talvez essa seja apenas a superfície.

Lá embaixo existe uma história muito mais antiga.

Quando a bicicleta foi solta cedo demais

Existe, porém, o movimento contrário.

A criança que precisou aprender a andar sozinha antes da hora.

Talvez porque o pai estivesse fisicamente ausente. Talvez porque estivesse emocionalmente indisponível. Talvez porque o alcoolismo, o trabalho, a doença ou tantas outras circunstâncias impedissem a construção desse vínculo.

Algumas crianças crescem muito cedo. Aprendem a não pedir ajuda, a resolver tudo sozinhas. Aprendem que chorar não adianta e que depender dos outros, machuca.

Quando chegam à vida adulta, costumam ser admiradas. São fortes, responsáveis, competentes. Resolvem problemas rapidamente.

Todo mundo diz: “Você dá conta de tudo.”

Mas, existe uma pergunta que raramente alguém faz:

“Quem cuida de quem sempre cuida de todo mundo?”

Essa é uma das adaptações mais silenciosas da ferida paterna: a autossuficiência.

À primeira vista, ela parece força. Mas, muitas vezes, nasceu da necessidade. A criança concluiu que não havia ninguém para segurar sua bicicleta. Então fez um acordo consigo mesma: “Vou aprender a nunca mais precisar de ninguém.

Durante algum tempo essa estratégia funciona. Ela protege, ajuda a sobreviver.

O problema é que aquilo que nos ajuda a sobreviver na infância pode limitar profundamente nossa vida adulta.

Porque sobreviver e viver são coisas diferentes.

Quem sobrevive permanece em estado de alerta. Quem vive consegue confiar. E confiança não nasce apenas da razão, nasce da experiência. É justamente por isso que tantos adultos extremamente competentes ainda sentem uma solidão difícil de explicar.

Eles aprenderam a resolver tudo. Só nunca aprenderam que também poderiam ser sustentados.

O que a ciência nos mostra

As pesquisas sobre desenvolvimento humano apontam que autonomia e segurança emocional não são características inatas. Elas são construídas nas relações.

John Bowlby demonstrou que os vínculos de apego influenciam a maneira como interpretamos disponibilidade, confiança e proteção ao longo da vida.

Murray Bowen observou que adultos com maior diferenciação do self conseguem tomar decisões mantendo o pertencimento familiar, sem viver prisioneiros da necessidade constante de aprovação.

Daniel J. Siegel acrescenta que experiências repetidas de segurança ajudam a organizar os circuitos cerebrais relacionados à regulação emocional, favorecendo maior flexibilidade diante dos desafios.

Talvez por isso compreender nossa história seja tão importante.

Não para justificar tudo o que aconteceu, mas para perceber que muitas das dificuldades que hoje chamamos de “defeitos” podem ter sido, um dia, estratégias inteligentes de sobrevivência. E toda estratégia de sobrevivência merece, antes de qualquer julgamento, ser compreendida.

O piloto automático da infância

Você já dirigiu um carro por um caminho tão conhecido que, quando chegou ao destino, quase não se lembrava do percurso? Do nada, você percebe que apareceu um prédio na rua que você passa todo dia, e você nem viu ele sendo construído?

O cérebro faz isso o tempo todo. Ele transforma comportamentos repetidos em automatismos para economizar energia. É uma estratégia inteligente.

Imagine se, todas as manhãs, você precisasse reaprender a escovar os dentes, dirigir ou amarrar os sapatos. Seria extremamente cansativo. E, além disso, te privaria de tempo para aprender e viver coisas novas.

O problema é que o cérebro não automatiza apenas movimentos. Ele também automatiza formas de sentir, interpretar e reagir.

É por isso que algumas pessoas, diante de uma crítica, imediatamente acreditam que fracassaram. Outras, quando recebem um elogio, pensam que foi apenas sorte. Algumas desistem antes mesmo de tentar. Outras precisam provar o tempo inteiro que merecem ser amadas.

Essas respostas parecem escolhas. Mas, na maior parte das vezes, são caminhos emocionais percorridos tantas vezes que se transformaram em verdadeiros pilotos automáticos.

Quando isso acontece, deixamos de reagir ao presente e passamos a responder ao passado.

É exatamente por isso que tantas pessoas dizem:

“Eu sei que isso não faz sentido, mas, não consigo agir diferente.”

A razão compreende. O corpo continua obedecendo a um mapa muito mais antigo.

Autores como Siegel explicam que nossas primeiras experiências relacionais ajudam a organizar a forma como o cérebro interpreta segurança e ameaça.

Já Bessel van der Kolk, ao estudar o trauma, mostra que experiências emocionais intensas podem permanecer registradas não apenas como lembranças, mas como formas automáticas de responder ao mundo.

Na Terapia Sistêmica, observamos algo semelhante.

O comportamento de hoje costuma ser a continuação de uma história iniciada muito antes. Não porque o passado nos condene, mas porque aquilo que aprendemos cedo tende a se tornar familiar. E o cérebro gosta daquilo que lhe é familiar.

Mesmo quando esse familiar produz sofrimento.

A caixa invisível

Imagine que uma criança receba uma caixa ainda muito pequena.

No começo ela está quase vazia. Com o passar dos anos, algumas pessoas vão colocando coisas dentro dela. Uma frase, um olhar, um silêncio, uma crítica, uma expectativa um medo.

Uma responsabilidade que nunca deveria ter pertencido àquela criança.

Ela cresce. Estuda. Trabalha. Constrói uma família. E continua carregando a caixa, para cima e pra baixo.

O curioso é que, depois de muitos anos, ela já nem percebe mais que está carregando peso. Acredita que aquele esforço faz parte de quem ela é.

E é exatamente assim que muitas lealdades familiares funcionam. Elas não são decididas conscientemente. São aprendidas.

Ivan Boszormenyi-Nagy, um dos grandes influenciadores da Terapia Sistêmica, chamou esse fenômeno de lealdades invisíveis.

Segundo ele, pertencemos a uma rede de vínculos construída ao longo das gerações. Nessa rede, frequentemente assumimos compromissos silenciosos que jamais foram verbalizados.

Às vezes, eles aparecem em frases como essas que ouvi de pacientes:

“Meu pai trabalhou a vida inteira e nunca conseguiu descansar. Não seria justo que eu tivesse uma vida mais fácil. Até me sinto mal por isso.”

Ou:

“Se minha família sempre enfrentou dificuldades financeiras, porque eu seria diferente?”

Essas frases raramente são ditas em voz alta, fora do setting terapêutico. Às vezes, até mesmo em um ambiente seguro elas encontram resistência para sair.

Na maioria das vezes, elas nunca chegam à consciência, no entanto, continuam influenciando escolhas.

É por isso que algumas pessoas sentem culpa quando começam a prosperar. Outras sabotam relacionamentos saudáveis. Outras trabalham excessivamente sem conseguir desfrutar dos resultados.

E não é porque desejem sofrer, mas porque, em algum lugar muito profundo, continuam tentando permanecer fiéis à própria história.

Prosperar pode parecer uma traição

Talvez este seja um dos aspectos mais delicados da relação com a figura paterna.

E um dos menos compreendidos.

Imagine um menino que cresceu vendo o pai trabalhar de domingo a domingo. Mesmo assim, o dinheiro nunca era suficiente.

O pai repetia constantemente:

“A vida é dura.”

“Dinheiro não nasce em árvore.”

“Quem enriquece, faz alguma coisa errada.”

Aquele menino não aprende apenas frases. Ele aprende uma maneira de olhar para o mundo.

Quando se torna adulto e começa a prosperar, algo estranho acontece. Em vez de sentir alegria, sente culpa.

É como se uma parte dele perguntasse silenciosamente:

“Quem sou eu para viver uma vida que meu pai nunca conseguiu viver?”

Essa pergunta acontece no mais profundo do inconsciente, mas reverbera em movimentos externos e reais.

Na Psicologia Sistêmica, compreendemos que o amor infantil é profundamente leal. A criança prefere abrir mão de partes de si do que correr o risco de perder o pertencimento. É por isso que muitas pessoas não fracassam por falta de competência. Fracassam porque, inconscientemente, acreditam que crescer significa afastar-se daqueles que amam.

Perceba a delicadeza desse movimento.

Não estamos falando de falta de esforço. Nem de pensamento positivo.

Estamos falando de vínculos. E vínculos não são desfeitos por uma decisão racional.

Eles precisam ser compreendidos.

O pai continua morando dentro de nós

Quando ouvimos a palavra “pai”, normalmente pensamos em alguém que ficou no passado. Mas, a Psicologia nos mostra outra possibilidade.

Uma parte dessa relação continua vivendo dentro de nós. Ela aparece na forma como conversamos conosco, na maneira como enfrentamos desafios, na facilidade – ou dificuldade – para reconhecer nosso próprio valor.

Jung descreveu essa dimensão como parte do nosso mundo interno. Não carregamos apenas lembranças das pessoas importantes da nossa vida. Carregamos representações delas.

É por isso que algumas pessoas continuam tentando receber, aos cinquenta anos, uma aprovação que nunca chegou aos dez.

Outras permanecem brigando internamente com um pai que já nem está vivo. Outras ainda passam a vida inteira tentando provar que são suficientes.

Não para o mundo, mas para aquela voz que continua habitando seu universo interno.

Talvez seja por isso que compreender a relação com o pai seja tão importante.

Ele não continua decidindo tudo, porém, a forma como essa relação foi construída pode continuar influenciando a maneira como olhamos para nós mesmos.

E existe uma boa notícia: aquilo que foi aprendido também pode ser transformado.

É sobre isso que falaremos na próxima parte.

Quando o maior conflito não é com o pai, mas com a imagem que ficou dele

Existe uma frase que costumo dizer em aula e que, muitas vezes, causa estranhamento. Nem sempre o nosso maior conflito é com o pai. Às vezes, é com a imagem que construímos dele.

Pense em uma fotografia antiga. Com o tempo, ela vai desbotando. Algumas partes desaparecem. Outras ganham mais destaque.

Nossa memória funciona de maneira parecida. Ela não guarda apenas fatos, ela também constrói significados.

Duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e carregar lembranças completamente diferentes dela.

Por isso, quando falamos sobre a figura paterna, não estamos trabalhando apenas com aquilo que aconteceu. Estamos trabalhando com a forma como aquela experiência foi registrada emocionalmente.

É justamente por isso que dois irmãos, criados na mesma casa, podem desenvolver formas completamente diferentes de enxergar o pai.

Um lembra do incentivo, o outro guarda apenas a crítica.

Um recorda o acolhimento, o outro sente que nunca foi visto.

Isso não significa que um esteja mentindo. Significa apenas que cada história foi vivida por um olhar diferente.

A Terapia Sistêmica nos convida a respeitar essa complexidade.

Ela não procura descobrir quem está certo. Procura compreender como cada pessoa organizou internamente sua experiência.

Quando o julgamento aprisiona

Imagine que você passe muitos anos segurando uma pedra.

No começo ela parece pesada. Depois de algum tempo, você se acostuma. Os músculos aprendem a compensar o peso e você até esquece que está carregando alguma coisa.

Mas, isso não significa que a pedra deixou de existir.

O julgamento costuma funcionar dessa maneira.

Durante muitos anos, acreditou-se que perdoar significava esquecer, minimizar ou fingir que nada aconteceu. Hoje sabemos que não é isso.

Também não significa dizer que o outro estava certo.

Na perspectiva sistêmica, compreender não é absolver. É enxergar.

Quando permanecemos apenas na posição de quem julga, nossa energia continua voltada para aquilo que aconteceu. É como se uma parte da nossa vida permanecesse parada naquela mesma cena. E não saímos do lugar. A vida para ali.

Isso não acontece porque somos fracos. Acontece porque nosso cérebro busca coerência. Ele continua tentando encontrar uma resposta para algo que ainda não conseguiu integrar.

Bowen observava que quanto menor nossa diferenciação emocional, maior a tendência de permanecermos presos às reações automáticas construídas dentro do sistema familiar.

Isso não significa concordar com comportamentos inadequados. Significa desenvolver liberdade para que eles deixem de dirigir nossas escolhas. Eu uso a expressão “ignorar com amor”. Funciona.

Existe uma diferença enorme entre lembrar e continuar vivendo dentro da lembrança.

O pai também foi filho

Sempre que falamos sobre relações familiares, gosto de lembrar uma imagem. Imagine uma corrida de revezamento. Cada corredor recebe um bastão. Ninguém escolhe o bastão que recebe. Alguns recebem um bastão leve. Outros carregam um peso enorme.

Mas, todos têm uma decisão a tomar: continuar entregando exatamente o mesmo bastão ou transformá-lo antes de passá-lo adiante. Na corrida, cada corredor pode melhorar ou piorar o tempo da entrega do bastão, tornando a missão mais leve ou mais pesada para o próximo que irá recebe-lo.

As famílias funcionam de maneira muito parecida.

Seu pai também foi filho. Antes de ser pai, existia uma criança.

Antes de educar você, ele foi educado.

Antes de construir uma família, também recebeu uma.

Isso não justifica escolhas inadequadas, mas, pode ampliar a sua compreensão. Aconteceu na minha relação com o meu pai, e agora penso que foi por esse motivo que o tema inicial da nossa série de artigos sobre as Feridas Invisíveis, comece justamente falando sobre a relação com o pai.

Talvez ele nunca tenha aprendido a demonstrar afeto. Talvez tenha crescido acreditando que amar era apenas trabalhar. Talvez tenha sido criado ouvindo que homem não chora. Talvez tenha vivido perdas que nunca conseguiu elaborar. Talvez ninguém tenha segurado a bicicleta dele. Ou soltado.

Quando percebemos isso, algo começa a mudar.

A dor não desaparece, a história ganha profundidade. E a verdade é que histórias profundas dificilmente cabem em julgamentos rasos.

A diferença entre explicar e justificar

Este talvez seja um dos pontos mais importantes deste artigo. Sempre que falamos sobre família existe o risco de alguém pensar:

“Então meu pai fez tudo isso porque sofreu?”

Não.

E é aqui que entendemos que compreender não significa justificar, porque explicar um comportamento não elimina a responsabilidade por ele. Se uma pessoa machucou outra, ela continua responsável por suas escolhas.

A Terapia Sistêmica nunca foi uma teoria para retirar responsabilidade. Pelo contrário, ela amplia a responsabilidade. Porque mostra que cada geração recebe uma história, mas também participa da construção da história seguinte. É exatamente aqui que nasce a liberdade.

Enquanto acreditamos que nossa vida é apenas consequência daquilo que recebemos, permanecemos esperando que o passado mude. Mas o passado não muda. Quem muda somos nós.

E quando mudamos nossa posição diante da própria história, algo extraordinário acontece.

A história continua sendo a mesma, mas, deixa de produzir exatamente os mesmos resultados.

É como reler um livro muitos anos depois. As palavras são iguais, as mesmas de antes. Quem mudou foi o leitor.

O que a ciência nos mostra

Os estudos sobre transmissão intergeracional mostram que experiências emocionais importantes podem influenciar gerações seguintes por diferentes caminhos: pela aprendizagem, pelos padrões de relacionamento, pelas narrativas familiares e até por mecanismos biológicos relacionados à resposta ao estresse.

Pesquisadores como Rachel Yehuda e Michael Meaney contribuíram para compreender como determinadas experiências podem influenciar a expressão de respostas biológicas ao longo das gerações, enquanto autores da Terapia Sistêmica, como Ivan Boszormenyi-Nagy, mostraram que histórias familiares também são transmitidas por vínculos, expectativas e lealdades.

Isso significa que herdamos muito mais do que características físicas. Herdamos maneiras de olhar para o mundo.

Mas toda herança pode ser compreendida. E aquilo que é compreendido deixa de precisar ser repetido automaticamente.

Então, qual é o caminho?

Depois de tudo isso, talvez você esteja se perguntando: “Se essa história realmente influencia a minha vida, o que eu faço agora?”

Essa é uma pergunta importante. Mas, antes de respondê-la, quero desfazer uma expectativa que costuma aparecer quando falamos sobre desenvolvimento humano.

Muitas pessoas acreditam que compreender uma ferida significa apagá-la. Como se o objetivo da terapia fosse fazer com que a dor nunca tivesse existido. Não é.

A maturidade não nasce quando esquecemos a nossa história. Ela nasce quando deixamos de ser dirigidos por ela.

Pense em alguém que sofreu um acidente e precisou reaprender a caminhar. A cicatriz pode permanecer, faz parte da história daquele corpo. Mas, a cicatriz não precisa decidir até onde aquela pessoa conseguirá chegar.

A mesma lógica vale para a vida emocional.

A pergunta não é: “Como faço para apagar minha infância?”.

A pergunta é: “Como deixo de permitir que a minha infância continue escrevendo sozinha o roteiro da minha vida adulta?”.

Essa é uma mudança profunda, porque devolve responsabilidade sem produzir culpa.

Construindo o pai interior

Voltemos, pela última vez, à bicicleta.

Imagine que aquela criança já cresceu. Hoje ela é adulta, tem filhos, uma profissão, sonhos, medos, projetos.

A bicicleta ficou para trás, mas, a confiança construída naquele processo continua pedalando dentro dela. Ou, em algumas histórias, continua faltando.

É aqui que quero falar sobre uma ideia muito importante.

Existe um pai que faz parte da nossa história. E existe um pai que, aos poucos, precisamos construir dentro de nós.

Não estou falando de substituir o pai que tivemos. Nem de fingir que a dor não existiu. Estou falando de desenvolver internamente aquilo que talvez tenha faltado externamente.

De aprender a dizer para si mesmo:

“Você consegue.”

“Continue.”

“Pode tentar outra vez.”

“Errar faz parte do caminho.”

“Você não precisa ser perfeito para ser digno de amor.”

Durante muitos anos esperamos ouvir essas frases de alguém, e provavelmente, em alguns casos elas vieram. Em outros, não.

A boa notícia é que nosso desenvolvimento não termina na infância. A neurociência tem mostrado algo extremamente esperançoso. O cérebro continua aprendendo durante toda a vida.

Novas experiências relacionais podem modificar antigas formas de perceber segurança, pertencimento e valor pessoal.

Autores como Daniel J. Siegel falam sobre integração. Bessel van der Kolk mostra como experiências reparadoras podem reorganizar padrões construídos em situações traumáticas. Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, explica que nosso sistema nervoso responde profundamente às experiências de segurança e conexão.

Em outras palavras…

O passado importa, mas, ele não possui a palavra final.

Essa talvez seja uma das notícias mais bonitas que a ciência pode nos oferecer.

Crescer não significa abandonar o pai.

Existe uma ideia de que gosto muito.

Ela diz que amadurecer não é cortar as raízes. É permitir que elas sustentem novos frutos.

Durante muito tempo acreditou-se que autonomia significava independência absoluta. Hoje compreendemos que não.

A verdadeira autonomia não rompe vínculos, ela transforma vínculos.

Murray Bowen descreveu esse processo como diferenciação do self. Uma expressão que pode parecer complicada, mas cuja ideia é extremamente simples. É a capacidade de continuar pertencendo à própria família sem precisar abandonar quem somos, conseguir amar sem se anular, discordar sem romper, prosperar sem sentir culpa, construir uma história própria sem precisar rejeitar a história de onde viemos.

Na prática, isso significa que crescer não exige abandonar o pai. Exige abandonar apenas a ideia de que continuamos sendo a mesma criança que precisava da aprovação dele para existir.

Esse é um movimento profundamente libertador, porque transforma a relação. Quando deixamos de esperar que o passado nos entregue aquilo que ele já não pode entregar, abrimos espaço para construir algo novo no presente.

Talvez a maior herança não seja aquilo que recebemos

Quando pensamos em herança, quase sempre imaginamos bens, dinheiro ou patrimônio. Entretando, toda família transmite muito mais do que isso.

Transmitimos histórias, crenças, medos, valores, silêncios, esperanças.

Também transmitimos coragem, resiliência, capacidade de amar, sentido de pertencimento.

Nenhuma família entrega apenas feridas. Nenhuma entrega apenas recursos.

Todas entregam uma mistura dessas duas coisas.

Talvez a maturidade consista justamente em aprender a distinguir uma da outra. Guardar aquilo que fortalece e transformar aquilo que limita. E seguir adiante.

Porque nenhuma geração precisa repetir integralmente a anterior.

Essa é, talvez, uma das formas mais bonitas de honrar quem veio antes. Não repetir a história, mas, permitir que ela continue evoluindo através de nós.

Uma carta para você

Se você chegou até aqui, talvez tenha reconhecido partes da sua própria história nestas páginas.

Talvez tenha lembrado do seu pai. Talvez tenha lembrado de você quando ainda era criança. Talvez tenha sentido vontade de conversar com alguém. Ou simplesmente tenha ficado em silêncio.

Se isso aconteceu, quero lhe dizer uma coisa. Este artigo não foi escrito para que você saísse procurando defeitos no seu pai. Nem para que passasse a explicar todos os desafios da sua vida por aquilo que viveu na infância.

Ele foi escrito para lembrar algo muito maior.

Toda criança faz o melhor que pode com a realidade que encontra. E todo adulto pode escolher fazer algo novo com a história que recebeu.

Você não escolheu o início da sua caminhada. Mas, pode escolher a direção dos próximos passos.

Talvez o seu pai tenha conseguido segurar sua bicicleta apenas por alguns metros. Talvez tenha soltado cedo demais. Talvez nunca tenha aprendido a segurá-la. Talvez tenha feito exatamente o melhor que conseguiu com a bicicleta que um dia também recebeu.

Hoje, porém, existe uma nova possibilidade.

Você pode continuar pedalando. Não porque a estrada seja perfeita, nem porque o medo tenha desaparecido. Mas,  porque, aos poucos, pode descobrir que a confiança não depende apenas da mão que um dia esteve atrás de você.

Ela pode nascer da pessoa que você decidiu se tornar.

E talvez seja isso que chamamos de maturidade.

Olhar para trás com respeito, olhar para dentro com coragem. E olhar para frente com esperança.

Isso é o que desejo a você! De verdade e, com amor!

🌻Patrícia

Sobre a série As Feridas Invisíveis

Este artigo faz parte da série As Feridas Invisíveis, um projeto editorial do Instituto Patrícia Naves Garcia (IPNG).

Ao longo desta coleção, vamos explorar como experiências vividas nas relações familiares podem continuar influenciando nossa forma de amar, trabalhar, prosperar, educar nossos filhos e ocupar nosso lugar no mundo.

Cada texto reúne contribuições da Psicologia, da Terapia Sistêmica, da Teoria do Apego, da Neurociência e de outras áreas das ciências do comportamento, traduzidas para uma linguagem acessível, sem perder o rigor científico.

Compreender nossa história não significa permanecer presos a ela. Significa desenvolver a liberdade de escrever os próximos capítulos de maneira mais consciente.

Próximo artigo da série:

A Ferida da Mãe: O primeiro lugar onde aprendemos o que é amor.

Sobre a autora

Patrícia Naves Garcia é psicóloga clínica, especialista em Abordagem Sistêmica e fundadora do Instituto Patrícia Naves Garcia (IPNG). Atua na formação de terapeutas, no atendimento clínico e na produção de conteúdos dedicados à compreensão das relações humanas, do trauma, do desenvolvimento emocional e da Terapia Sistêmica, traduzindo conhecimentos científicos para uma linguagem acessível e aplicável à vida cotidiana.

Referências

BOSZORMENYI-NAGY, I.; SPARK, G. Invisible Loyalties. Harper & Row, 1973.

BOWEN, M. Family Therapy in Clinical Practice. Jason Aronson, 1978.

BOWLBY, J. Attachment and Loss. Basic Books, 1969.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Vozes.

MINUCHIN, S. Famílias e Terapia Familiar. Artes Médicas.

SATIR, V. The New Peoplemaking. Science and Behavior Books.

SIEGEL, D. J. The Developing Mind. Guilford Press.

VAN DER KOLK, B. O Corpo Guarda as Marcas. Objetiva.

PORGES, S. The Polyvagal Theory. Norton.

YEHUDA, R. et al. Estudos sobre transmissão intergeracional do trauma.

MEANEY, M. Estudos sobre epigenética e desenvolvimento.

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